Na Vila Mariana, uma farmácia aberta em 1978 ainda fecha o portão manualmente às 22h. Três quarteirões dali, um aplicativo promete entrega em 35 minutos. São Paulo concentra o maior mercado varejista farmacêutico do país — e, dentro dele, uma batalha silenciosa entre boticários de esquina e redes que dominam avenidas.
Esta reportagem percorreu estabelecimentos na zona sul e na zona leste da capital paulista para entender o que mantém as farmácias de bairro de pé quando o preço online pisca na tela do cliente e quando shoppings abrigam lojas de cadeias com fachada padronizada.
Quem frequenta a farmácia da esquina
No Ipiranga, Dona Lúcia — nome fictício a pedido da entrevistada — vai à mesma farmácia há quinze anos. Ela diz que o farmacêutico "sabe o que o neto toma de alergia" e que isso não tem preço. Não é amostra estatística, mas ecoa um padrão que ouvimos várias vezes: confiança construída em repetição, não em campanha de marketing.
Já em Moema, um morador de 34 anos relatou que compra remédio de uso eventual pelo app e só entra na farmácia física quando precisa de algo na hora — dipirona de madrugada, por exemplo. Para ele, a farmácia de bairro é "plano B", não destino principal. Dois perfis, um mesmo bairro com realidades econômicas distintas.
Pressão das redes e dos custos
Proprietários independentes citam aluguel, folha de pagamento e exigências sanitárias como pressão constante. Um deles, na Penha, mostrou planilha (sem revelar números exatos) indicando que margem em genéricos caiu nos últimos anos enquanto concorrentes de rede negociam volume com distribuidores maiores. Ele não culpa o vizinho: "O jogo mudou. Ou você entra no delivery ou fica só com quem gosta de papo no balcão — e isso paga menos conta do que antes."
A Prefeitura de São Paulo não possui cadastro público específico que separe farmácias independentes de franquias; consultamos dados agregados de alvarás de funcionamento e constatamos queda lenta no número de novos estabelecimentos de pequeno porte em algumas regiões centrais, com crescimento relativo em bairros periféricos. Interpretar isso exige cautela: abertura e fechamento dependem de muitos fatores além da concorrência.
Digitalização sem equipe de TI
Algumas farmácias de bairro aderiram a marketplaces e WhatsApp para pedidos. O processo, segundo relatos, foi improvisado na pandemia e ficou. Um farmacêutico na Saúde disse que a filha universitária montou o catálogo no celular e que hoje cerca de 20% do faturamento vem de entregas num raio curto. Outro, na zona leste, tentou e desistiu: "Taxa do aplicativo comia o que eu ganhava no genérico."
Não há modelo único. O que parece comum é a aposta em raio de atendimento pequeno e em horário estendido em pontos com pouca concorrência noturna — estratégia que redes nem sempre replicam com a mesma granularidade.
SUS, Farmácia Popular e o bairro
Vários estabelecimentos visitados são credenciados à Farmácia Popular ou atuam como ponto de orientação sobre medicamentos disponíveis no SUS. Funcionários relatam filas em dias de pagamento de benefícios e dúvidas sobre documentação. A integração com políticas federais é, para alguns, fio de sustentação quando a venda de perfumaria e conveniência não compensa.
Sem romantizar: farmácia de bairro não é sinônimo de preço baixo. Em produtos de marca, o cliente comparador às vezes encontra promoção maior na rede. O diferencial está no pacote — atendimento, proximidade, memória afetiva — que planilhas corporativas medem com dificuldade.
O que vem pela frente
Especialistas em varejo consultados pela redação evitam prever extinção em massa. Falam em consolidação: alguns fecham, outros se especializam em nichos (manipulação, dermocosméticos, atenção a idosos). São Paulo segue sendo laboratório do setor no Brasil — e a farmácia da esquina, com suas imperfeições, ainda faz parte da paisagem que muita gente não quer ver só pela tela do celular.